Uma coordenadora financeira foi forçada a realizar 540 ligações por dia, participar de reuniões chamadas de “reunião dos desesperados” e receber mensagens no WhatsApp com frases como “tem muita gente querendo o seu emprego”. O resultado? O Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconheceu o assédio moral e manteve a indenização de R$ 10 mil em favor da trabalhadora. A decisão, da 8ª Turma do TST, é um sinal claro: pressão abusiva no trabalho tem limite — e consequências jurídicas sérias.
A trabalhadora foi contratada em 2013 por uma empresa do setor financeiro para oferecer empréstimos e financiamentos. Três anos depois, em 2016, foi demitida sem justa causa. Mas antes de sair, viveu uma rotina que a Justiça do Trabalho classificou como ambiente de terror psicológico.
As cobranças não eram simples. A funcionária era obrigada a cumprir uma meta de 540 ligações por dia — o equivalente a uma ligação a cada menos de um minuto, considerando uma jornada de 8 horas. E quando as metas não eram atingidas, as consequências iam além de uma conversa com o gestor.
As reuniões coletivas tinham nome próprio: “reunião dos desesperados”. E-mails eram disparados para toda a equipe com frases de intimidação. No grupo do WhatsApp corporativo, as mensagens não deixavam dúvidas sobre o clima: “você está sendo paga para isso” e “tem muita gente querendo o seu emprego”.
A chefia também expunha os empregados por meio de rankings de produção — comparando, publicamente, quem produzia mais e quem produzia menos.
Essa é a pergunta que muitas pessoas se fazem. Afinal, toda empresa cobra resultados. Então, onde está a linha entre uma gestão exigente e o assédio moral?
A resposta está no método e no impacto emocional.
A lei e a jurisprudência trabalhista reconhecem que o empregador tem o direito de fixar metas e cobrar desempenho. Mas esse direito tem limites claros. Quando a cobrança passa a:
…estamos diante do assédio moral — e não de uma simples gestão por resultados.
No caso julgado pelo TST, as testemunhas confirmaram tudo isso. Os e-mails e as mensagens de WhatsApp funcionaram como prova documental. O tribunal foi claro: os adjetivos usados pela empresa “aviltavam a dignidade” da trabalhadora.
Esse caso não é isolado. Nos últimos anos, a Justiça do Trabalho tem acumulado decisões reconhecendo que gestão por pressão extrema é assédio moral.
Alguns elementos que os juízes costumam analisar:
No caso analisado, todos esses elementos estavam presentes. Por isso, a condenação foi mantida desde a 1ª instância até o TST.
Não existe um valor fixo. A indenização por danos morais no Direito do Trabalho depende de fatores como:
Nesse processo, o juiz de 1ª instância fixou R$ 15 mil. O TRT (Tribunal Regional do Trabalho) reduziu para R$ 10 mil. O TST manteve esse valor, entendendo que não era exorbitante diante das circunstâncias.
⚠️ ATENÇÃO: A Reforma Trabalhista de 2017 criou uma tabela de valores para indenizações por danos morais, vinculada ao salário do empregado. Por isso, o valor da indenização pode variar bastante de acordo com a remuneração de cada trabalhador.
Muitas vítimas de assédio moral hesitam em buscar seus direitos porque acreditam que “não têm como provar”. Mas as provas existem — e muitas vezes estão no celular de cada um.
Veja o que pode ser usado como prova:
Neste caso do TST, as mensagens de e-mail e WhatsApp foram determinantes para que a trabalhadora ganhasse a ação. Guarde tudo o que puder.
Infelizmente, esse temor é comum — e real. Mas a lei protege o trabalhador. A demissão motivada por retaliação a uma reclamação trabalhista pode ser considerada dispensa discriminatória, o que gera direito a indenização adicional.
Além disso, é possível pedir a rescisão indireta do contrato de trabalho — ou seja, o empregado pede à Justiça que reconheça que as condições de trabalho eram insuportáveis, e recebe todos os direitos trabalhistas como se tivesse sido demitido sem justa causa.
Se você se identificou com a situação descrita nesta matéria, aqui estão os passos mais importantes:
Tem dúvidas sobre o seu caso? Cada situação é única, e somente uma análise profissional pode indicar o melhor caminho. Se você acredita que está sofrendo assédio moral no trabalho ou simplesmente quer entender melhor seus direitos, consulte um advogado de sua confiança. Conhecer a lei é o primeiro passo para se proteger.